Quanta Pretensão

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Chegara quebrando tudo, rodando a baiana, como se fosse a dona da verdade absoluta. Não quis ouvir explicações e muito menos fazer uma negociação de modo que reparasse o dano que sofrera. Toda sua beleza aparente medida e aprovada pelo cânon da sociedade escorreu pelo ralo quando abriu a boca “soltando os cachorros” com olhar altivo.

_ Chama o gerente para mim. É inadmissível que isso aconteça! Quero meu dinheiro de volta e nunca mais retornarei aqui!

Coitada da atendente. Cabisbaixa, sem o direito de resposta, permaneceu como se estivesse a proteger sua cabeça, pois sabia que cabeças iriam rolar. E orava, para que não fosse a dela – era pãe com dois filhos para criar.

Esse barraco todo por causa de um pedido trocado. Quem pode acreditar? O açaí era com leite em pó, mas entregaram com leite condensado. Já pensou se essa moda pega? Tratar pessoas como seres inanimados para satisfazer egos. O delivery facilitou muito a vida dos amantes do sofá, mas é fato que nem sempre sai do jeito que o cliente quer. Deve ser por causa da tal subjetividade.

_ Sim, senhora. Iremos resolver a situação agora. Devolveremos o dinheiro e faremos um açaí de brinde. E é claro que não seria apenas essas medidas a serem adotadas.

A atendente pagou o pato, descascou o abacaxi, engoliu um sapo e perdeu o emprego. Triste fim, não do Policarpo Quaresma. Triste fim da atendente que só estava fazendo seu trabalho, mas o gerente não pensa assim.

Quando presencio cenas assim, é a voz daquele ancião e líder religioso que sussurra em meus ouvidos quando dizia: “Quanta pretensão a nossa, achamos superiores até a Jesus Cristo e vivemos uma vida autossuficiente e desregrada. Faremos sim, para aqueles que são Cristãos, obras maiores em quantidade, pois temos mais tempo uma vez que seu ministério durou cerca de 3 anos e faremos iguais até, pois Ele confiou isso a seus seguidores. E digo, quanta pretensão pensar ser melhor ou pior que o outro. Quanta pretensão pensar que é o melhor profissional e que é insubstituível. Quanta pretensão pensar que estará aqui para sempre julgando ser imortal. Quanta pretensão achar que o dinheiro pode comprar tudo e a todos. Quanta pretensão pensar que seu sofrimento é maior que do outro. Quanta pretensão pensar que é invisível aos olhos do Deus que tudo vê. Quanta pretensão pensar que impor medo é se ter respeito.

Estas atitudes e tantas outras mais, é como uma ressonância magnética que revela como estamos verdadeiramente por dentro. Às vezes, estamos com tudo na “régua” aparentemente e esteticamente, mas por dentro, verdadeiros sepulcros caiados. Ao se deparar com pessoas que apresentam a síndrome da imodéstia ofereça-lhes paz, luz e calor humano, pois elas estão vazias, escuras e frias, como Esopo, fabulista grego, já dizia: “Quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz!”

 

 

 

Cirlene da Silva Lima é licenciada em Letras pela Universidade de Brasília e Bacharelando em Teologia pelo Instituto de Teologia e Educação Gênesis. Atua como professora mediadora presencial do curso em Inglês Básico ofertado pelo Polo Universitário de Buritis em parceria com o IFNMG.

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