Caminhos do Urucuia

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Você sabia que Buritis é o primeiro município mineiro a receber as águas do majestoso rio Urucuia? O rio de águas vermelhas nasce em Goiás, mais especificamente na região do Raizama, no município de Formosa, próximo ao córrego e ao distrito de Bezerra, na fronteira com Buritis.

Ainda que discreto, o rio Urucuia passa a receber as águas de outros córregos nos chapadões goianos, como por exemplo do rio Bonito, próximo ao Poço Azul. Entre lavouras, plantações e áreas de preservação ambiental o rio sobressai e aos poucos se mostra maior.

O rio Urucuia está presente em todos os momentos de nossa história, o escritor Oscar Durães descreve a povoação indígena nas Ilhas das Guaíbas, ilha do rio São Francisco próximo a Foz do rio Urucuia. Segundo o escritor, duas tribos que habitavam a região dos rios Urucuia e Paracatu seriam descendentes dos caiapós, índios que desceram do Maranhão passando por Tocantins e que teriam dado o nome a este rio.

Em uma conquista de terras após matarem e expulsarem os índios da Ilha das Guaíbas na foz do rio Urucuia no início do século 18, os sertanistas paulistas, Januário Cardoso, Manoel Francisco Toledo, Domingos Prado de Oliveira e Salvador Cardoso de Oliveira, estenderam domínio sobre toda a vasta região e se tornaram os senhores do Urucuia.

o Urucuia afluente do São Francisco

O tráfego de aventureiros na busca pelo ouro em Paracatu e Goiás fez a região do Urucuia se desenvolver. Após as primeiras picadas brutas a facão e machado, feitas por sertanistas que cruzavam terras mineiras do extremo de São Romão, margeando os barrancos do Urucuia ao encontro de Sant’anna do Buritiy, subiam pela nascente do Urucuia até os imensos chapadões do Arraial de Couros, hoje Formosa em Goiás. Pouco a pouco novos povoados foram surgindo ás margens desse rio e as primeiras famílias foram se fixando, em meio as dificuldades do grosseiro e inabitado cerrado da época.

Em registros históricos somos transportados ao ano de 1778, quando uma cartografia confirma o roteiro do bandeirante Lourenço Castanho Táquis, que abrangia o Urucuia, o Rio Preto e a Lagoa Feia. Tal bandeirante percorreu o estreito da chapada de Guarapuava e Buritis.

A partir desse momento, o Arraial do Butithy aparece no palco da história como a ponte da prosperidade, onde os movimentos comerciais dependiam do transporte fluvial trazendo sal e outros tipos de mercadoria que vinham do litoral de Juazeiro e Petrolina através do rio São Francisco. O transporte fluvial adentrava Minas Gerais em São Romão e Pirapora, onde atingiu por algumas décadas o rio Urucuia.

O Urucuia foi navegável até a barra do Rio Claro, onde por um determinado tempo se desenvolveu um garimpo de diamante, hoje no município de Arinos. Foi nessa época que surgiu o povoado de Morrinhos, localizado próximo ao Ribeirão das Areias e que muito prosperou no final do século 18. Esse transporte atingiu também o rio Paracatu, trazendo produtos, mercadorias e prosperidade para a região.

Durante esse período, habitantes especificamente de Goiás desceram o extremo leste margeando os barrancos do rio Urucuia que dava acesso ao povoado de Sant’anna do Buritiy, onde o comércio girava em torno de cabaças, couro, queijo, toucinho, aguardente, sabão, arreios, óleo de mamona, pedra de fogo, cordas e balaios extraídas da palmeira do Buriti e outros produtos.

Em 1810 o Arraial do Burity muito prosperou por causa do garimpo de diamante no Rio Claro, o subsídio da vida do sertanejo dependia do desbravamento do sertão bruto e a vida primitiva foi dividida em ciclos como o da cabaça e de couro. Cercados pelo destemor, pela audácia e bravura, a vida era uma verdadeira odisseia pelo mato, entre rios, córregos, cachoeiras e animais selvagens.

O grandioso Aquífero Urucuia completa nosso texto, dando a importância totalizada das riquezas dessas águas para o Brasil. Localizado no extremo sul do Piauí, passando pelo Maranhão, Goiás, Bahia e Tocantins, alcançando o norte e nordeste de Minas Gerais. O Aquífero Urucuia está em uma área de aproximadamente 80 mil quilômetros de extensão e tem uma função reguladora dos afluentes da margem esquerda do rio São Francisco.

Aquífero Urucuia

O Urucuia é nosso maior rio, é símbolo de vida do sertanejo urucuiano. Em Buritis, ele recebe as águas do córrego Taquaril, do ribeirão São Vicente, córrego Extrema, rio São Domingos, Barriguda e Piratinga. Em Arinos ele aumenta seu volume e recebe as águas do rio Claro, o caudaloso rio São Miguel também deságua no Urucuia, além dos ribeirões da Ilha, da Areia e Confins. O rio de águas vermelhas e batizado pelos caiapós também dá nome ao município de Urucuia, onde também recebe as águas do córrego Taboca e Gameleira.

Há relatos de navegação para transporte de mercadorias pelo rio Urucuia em 1922, quando o Major Saint Clair Valadares construiu uma lancha e uma canoa de tamboril com capacidade de 3 toneladas e fazia o percurso do Porto da Ponte Alta à foz do Urucuia no São Francisco, passando por São Romão e indo até Pirapora. No percurso de 75 léguas pelo rio Urucuia, a lancha era movida por um motor.

O Urucuia deságua no São Francisco

Imortalizado nos versos de João Guimarães Rosa, o rio de amor desse saudoso escritor brasileiro, deságua no São Francisco, depois de receber as águas dos ribeirões da Conceição, das Pedras e do riacho Campo Grande, dando fim a um caminho percorrido somente pelos mais corajosos e destemidos do sertão, tal como este rio.

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